segunda-feira, 3 de junho de 2024

O LIVRO DOS ESPÍRITOS. CAPÍTULO X.OCUPAÇÕES E MISSÕES DOS ESPÍRITOS.

 


O LIVRO DOS ESPÍRITOS. CAPÍTULO X.

DAS OCUPAÇÕES E MISSÕES DOS ESPÍRITOS.

 

Os Espíritos cuidam de outra coisa além do nosso melhoramento Espiritual, pois concorrem para a harmonia do Universo, executando a vontade de Deus, do qual são os ministros. A vida Espírita é uma ocupação contínua, mas nada tem de penosa como a da Terra, pois não está sujeita à fadiga corpórea nem às angústias da necessidade.

 Já os Espíritos inferiores e imperfeitos desempenham também um papel no Universo, onde todos têm deveres a cumprir no universo.

Vale dizer que todos temos de habitar em toda parte e adquirir o conhecimento de todas as coisas, presidindo sucessivamente às funções concernentes a todos os planos do Universo. Mas, como se diz no Eclesiastes, há um tempo para cada coisa. Assim, este cumpre hoje o seu destino neste mundo, aquele o cumprirá ou já cumpriu em outro tempo, sobre a Terra, na água, no ar etc.

Todos devem percorrer os diferentes graus da escala, para se aperfeiçoarem. Deus, que é justo, não poderia ter dado a uns a ciência sem trabalho, enquanto outros só a adquirem de maneira penosa.

Comentário de Kardec: Da mesma maneira, entre os seres humanos, ninguém chega ao supremo grau de habilidade numa arte qualquer, sem ter adquirido os conhecimentos necessários na prática das funções mais ínfimas dessa arte.

Os Espíritos da ordem mais elevada, nada mais tendo a adquirir, não se entregam a um repouso absoluto, pois se entregam a outras ocupações. A eterna ociosidade seria um suplício eterno.

A natureza de suas ocupações, primeiramente recebem diretamente as ordens de Deus, e as transmitem por todo o Universo e velam pela sua execução.

As ocupações dos Espíritos são incessantes, pois o pensamento deles está sempre em atividade, pois eles vivem pelo pensamento. Mas é necessário não equiparar as ocupações dos Espíritos com as ocupações materiais dos seres humanos. Sua própria atividade é um gozo, pela consciência que eles têm de ser úteis.

Os Espíritos inferiores têm ocupações apropriadas à sua natureza. Jamais confiaríamos ao trabalhador braçal e ao ignorante os trabalhos de um ser culto.

Entre os Espíritos há os que são ociosos ou que não se ocupem de alguma coisa útil. Mas esse estado é temporário e subordinado ao desenvolvimento de sua inteligência. Certamente que entre os seres humanos, existem aqueles que vivem apenas para si; mas essa ociosidade lhes pesa e, cedo ou tarde, o desejo de progredir lhes faz sentir a necessidade de atividade, e são então felizes de poderem tornar-se úteis. Falamos de Espíritos que atingiram o ponto necessário para terem consciência de si mesmo e de seu livre-arbítrio. Porque, em sua origem, eles são como crianças recém-nascidas que agem mais por instinto do que por uma vontade determinada.

Os Espíritos examinam os nossos trabalhos de arte e se interessam por eles, pois examinam o que pode provar a elevação dos Espíritos e seu progresso.

Quanto ao Espírito que teve uma especialidade na Terra, como um pintor, um arquiteto. Por certo do outro lado da vida ele se interessa de preferência pelos trabalhos que constituíram o objeto de sua predileção durante a vida terrena.

Por exemplo: Se for bom, se interessará por eles na proporção que lhe permitam ajudar a elevação das almas a Deus.

Agora devemos admitir que um Espírito que praticou uma arte na existência em que o conhecemos, pode ter praticado outra em outra existência, porque é necessário que tudo saiba para tornar-se perfeito. Assim, segundo o seu grau de adiantamento, pode ser que nenhuma delas constitua uma especialidade para ele. E isso é o que entendemos o que os Bons Espíritos dizem que tudo se confunde num objetivo geral. Pedem inclusive que notemos ainda isto: o que é sublime para nós no nosso mundo atrasado, não passa de infantilidade, comparado com o que há nos mundos mais avançados. Como queríamos que os Espíritos que habitam esses mundos, onde existem artes desconhecidas para nós, admiremos o que, para eles, não é mais que um trabalho escolar. Eles examinam aquilo que pode provar o progresso.

Assim deve ser para os Espíritos bastante adiantados. Para os menos adiantados é diferente. Seu ponto de vista é mais limitado, e podem admirar aquilo mesmo que admiremos.

Os Espíritos se imiscuem algumas vezes em nossas ocupações e em nossos prazeres, onde os Espíritos vulgares estão incessantemente ao nosso redor e tomam parte, às vezes bastante ativa naquilo que fazemos, segundo a nossa natureza. E é bom que o façam, para impulsionar os seres humanos nos diferentes caminhos da vida, excitar ou moderar as suas paixões.

Comentário de Kardec: Os Espíritos se ocupam das coisas deste mundo na razão da sua elevação ou da sua inferioridade. Os Espíritos superiores têm, sem dúvida, a faculdade de considerá-las nos seus mínimos aspectos, mas não o fazem senão na medida em que isso seja útil ao progresso. Os Espíritos inferiores somente ligam a essas coisas uma importância relativa ás lembranças que ainda estão presentes em sua memória, e às ideias materiais que ainda não foram extintas.

Os Espíritos que têm missões a cumprir cumprem-nas em estado errante ou encarnado, podendo fazê-lo num e noutro estado. Para certos Espíritos errantes essa é uma grande ocupação.

As missões de que podem ser encarregados os Espíritos errantes são tão variadas que seria impossível descrevê-las; existindo aquela que não poderíamos compreender.

Comentário de Kardec:  As missões dos Espíritos bons têm sempre o bem por objeto. Seja como Espírito, seja como seres humanos, são encarregados de ajudar o progresso da humanidade, dos povos, ou dos indivíduos num circulo de ideias mais ou menos largo, mais ou menos especial, de preparar as vias para certos acontecimentos, e de velar pela realização de certas coisas. Alguns têm missões mais restritas e de certa maneira pessoais ou inteiramente locais, como de assistir aos doentes, os agonizantes, os aflitos, de velar pelos que estão sob a sua proteção de guias,  de dirigi-los pelos seus conselhos ou pelos bons pensamentos que lhes surgem. Pode se dizer que há tantos gêneros de missões quantas as espécies de interesses a resguardar, seja no mundo físico ou no mundo moral. O Espírito se adianta segundo a maneira por que desempenha a sua tarefa.

0s Espíritos não compreendem sempre os desígnios que estão encarregados de executar. Há os que são instrumentos cegos, mas outros sabem muito bem com que objetivo agem.

No cumprimento de missões dos Espíritos, a importância delas está em relação com a capacidade e a oração do Espírito. O estafeta que leva um despacho cumpre também uma missão, que não é a do general.

Quanto à missão de um Espírito que lhe é imposta, ele a pede e alegra-se de obtê-la. A mesma missão pode ser pedida por muitos Espíritos, pois há sempre muitos candidatos, mas nem todos são aceitos.

A missão dos Espíritos encarnados é instruir os seres humanos, ajudá-los a avançar, melhorar as suas instituições por meios diretos e materiais. Mas as missões são mais ou menos gerais e importantes. Aquele que cultiva a terra cumpre uma missão, como aquele que governa ou aquele que instrui. Tudo se encadeia na Natureza;  ao mesmo tempo em que o Espírito se depura pela encarnação, também concorre por essa forma para o cumprimento dos desígnios da Providencia. Cada um tem a sua missão neste mundo, porque cada um pode ser útil em algum sentido.

A missão de pessoas voluntariamente inúteis na Terra é de pobres seres que devemos lamentar, porque expiarão cruelmente sua inutilidade voluntária. Seu castigo começa frequentemente desde este mundo, pelo tédio e o desgosto da vida.

Do direito de escolha, o por que preferiram uma vida que em nada lhes poderia aproveitar, é porque juntos aos Espíritos há também os preguiçosos que recuam diante de má vida de trabalho. Deus os deixa fazer; pois compreenderão mais tarde e à sua própria custa os inconvenientes de sua inutilidade e serão os primeiros a pedir para reparar o tempo perdido. Talvez, também, tenham escolhido uma vida mais útil, mas uma vez em ação a recusaram, deixando-se arrastar pelas sugestões dos Espíritos que os incitavam à ociosidade.

Dentro das ocupações comuns que nos parecem antes deveres que missões propriamente ditas, podemos reconhecer que um ser humano tem uma missão real na Terra pelas grandes coisas que ele realiza, pelo progresso que faz os seus semelhantes realizarem.

Os seres humanos que têm uma missão importante que são predestinados a ela, as vezes  antes do nascimento e têm conhecimento disso. Mas, na maioria das vezes, o ignoram. Só têm um vago objetivo ao virem para a Terra; sua missão se desenha após o nascimento e segundo as circunstâncias. Deus os impulsiona pela via em que devem cumprir os seus desígnios.

Quando um ser humano faz uma coisa útil não é sempre em virtude de uma missão anterior e predestinada. Ele é frequentemente o instrumento de que um Espírito se serve para fazer executar alguma coisa que considera útil. Por exemplo, um Espírito julga que seria bom escrever um livro que ele escreveria se estivesse  encarnado; procura o escritor mais apto a compreender o seu pensamento e a executá-lo; dá-lhe então a ideia e o dirige na execução. Assim, este homem não veio a Terra com a missão de fazer a obra. Acontece o mesmo com alguns trabalhos de arte e com as descobertas. Deve-se dizer ainda que durante o sono do corpo, o Espírito encarnado se comunica diretamente com o Espírito errante, e que se entendem sobre a execução.

O Espírito pode falir na sua missão por sua culpa, se não for um Espírito superior.

As consequências para ele é que terá de reiniciar a tarefa; está nisso a punição. Depois sofrerá as consequências do mal que tenha causado.

Quanto à confiança que Deus pode confiar uma missão importante e de interesse geral a um Espírito que poderia falir, é que Deus não sabe se o seu general será vitorioso ou vencido. Ele  sabe dos seus planos, mas que irão abandonar a obra em meio do trabalho não.

O Espírito que encarna para cumprir uma missão não tem as mesmas apreensões daquele que o faz como prova, porque ele tem experiência.

 

Os seres humanos que são os faróis do gênero humano, que se esclarecem que tem certamente uma missão, há os que se enganam e que, ao lado de grandes verdades, difundem grandes erros, devemos considerar como falseada por eles. Eles estão abaixo da tarefa que empreenderam. É necessário, entretanto tomar em conta as circunstâncias; os gênios devem falar segundo o tempo, e um ensino que parece errôneo ou pueril para uma época avançada poderia ser suficiente para o seu século.

A paternidade é, sem contradita, uma missão. E ao mesmo tempo um dever muito grande, que implica, mais do que o ser humano pensa, sua responsabilidade para o futuro. Deus põe a criança sob a tutela dos pais para que estes a dirijam no caminho do bem. E lhes facilitou a tarefa dando à criança uma organização débil e delicada, que a torna acessível a todas as impressões.  Mas há os que mais se ocupam de endireitar as árvores do pomar do que fazê-las carregar de bons frutos, do que endireitar o caráter do filho. Se este sucumbir por sua culpa, terão de sofrer a pena, e os sofrimentos da criança na vida futura recairão sobre eles, porque não fizeram o que lhes competia para o seu adiantamento nas vias do bem.

Mas se uma criança se transviar, apesar dos cuidados dos pais, estes não são responsáveis. Mas quanto mais as disposições da criança são más, mais  a tarefa é pesada e maior será o mérito se conseguirem desviá-la do mau caminho.

Se uma criança se torna um bom adulto, apesar da negligência ou dos maus exemplos dos pais, estes se beneficiam com isso, porque Deus é justo.

A natureza da missão do conquistador, que só tem em vista satisfazer a sua ambição e para atingir o alvo não recua diante de nenhuma calamidade. Deus as vezes deixa que isto aconteça muitas vezes, para fazer avançar mais rapidamente um povo.

Aquele que é instrumento dessas calamidades passageiras é alheio ao bem que delas pode resultar, se propondo um alvo pessoal; o aproveitamento desse bem será dado a cada um a recompensa segundo as suas obras, o bem que desejou fazer e a orientação de suas intuições.

Comentário de Kardec: Os Espíritos encarnados têm ocupações inerentes à sua existência corporal. No estado errante ou de desmaterialização suas ocupações são proporcionais ao seu grau de adiantamento.

Uns percorrem os mundos, instruindo-se e preparando-se para uma nova encarnação.

Outros, mais avançados, ocupam-se do progresso dirigindo os acontecimentos e sugerindo pensamentos favoráveis; assistem aos seres de gênio que concorreram para o adiantamento da Humanidade.

Outros se encarnam com uma missão de progresso.

Outros tomam à sua tutela indivíduos, famílias, aglomerações humanas, cidades e povos dos quais se tornam anjos da guarda, gênios protetores e Espíritos familiares.

Outros, enfim, presidem aos fenômenos da Natureza, dos quais são os agentes

diretos.

Os Espíritos comuns se imiscuem nas ocupações e divertimentos dos seres humanos.

Os Espíritos impuros ou imperfeitos esperam, nos seus sofrimentos e angústias, o momento em que praza a Deus conceder-lhes os meios de se adiantarem. Se fizerem o mal é pelo despeito de ainda não poderem gozar do bem.

Estas anotações de Kardec dão-nos a visão de conjunto das funções dos Espíritos na natureza, e justificam a sua afirmação de que os Espíritos são uma das forças naturais do Universo. As doutrinas espiritualistas que acusam o Espiritismo de não reconhecer a existência de classes de Espíritos não humanos desconhecem este quadro. O Espiritismo é monista e considera toda a evolução espiritual como um processo único que se define na Humanidade, mas reconhece as fases pré-humanas dessa evolução. Como vemos acima, os Espíritos estão em toda parte e exercem universalmente a sua ação inteligente.

 

BIOGRAFIA. O LIVRO DOS ESPÍRITOS.  MATÉRIA DIVULGADA PELO MÉDIUM GETULIO PACHECO QUADRADO.

O LIVRO DOS ESPÍRITOS. CAPÍTULO XI. OSTRÊS REINOS. OS ANIMAIS E O HOMEM.

 


 

O LIVRO DOS ESPÍRITOS-CAPÍTULO XI. DOS TRÊS REINOS-OS ANIMAIS E O HOMEM.

 

No ponto de vista filosófico, uns querem que o homem possa vir a reencarnar num corpo de um animal irracional, e outros que o animal irracional venha a reencarnar num corpo de um homem racional, e isto não pode acontecer. Não pode porque o homem vem a ser um ser a parte, podendo descer muito baixo em algumas vezes e se elevar bem alto.

Fisicamente o homem vem a ser igual ao animal irracional, e até menos dotado que muitos deles. A natureza deu aos animais irracionais, tudo o que o homem é obrigado a inventar com a sua inteligência para satisfazer suas necessidades e sua conservação, como exemplo o cachorro que depende muito do homem. É verdade que o corpo material do homem se destrói como dos animais irracionais, mas seu Espírito tem uma destinação que somente ele pode compreender, porque apenas o homem é completamente “livre”.

O instinto domina os animais irracionais, mas muitos agem com uma vontade determinada, é a inteligência limitada.

Além do instinto não há como negar a alguns animais irracionais atos combinados, que expressam uma vontade de agir num sentido determinado e de acordo com as circunstancias. Existindo neles uma espécie de inteligência, cujo exercício é mais exclusivamente concentrado sobre os meios de satisfazerem suas necessidades físicas e proverem a sua conservação, como exemplo o leão. Entre eles não existe nenhuma criação, nenhum melhoramento; qualquer que seja a arte com que executem seus trabalhos faz hoje o que faziam antigamente, nem melhor e nem pior.

O filhote de passarinho, isolado da sua espécie não deixa de construir seu ninho com o mesmo modelo, sem ter recebido ensinamento.

Se alguns animais irracionais são suscetíveis de uma certa educação, o seu desenvolvimento é restrito a limitados, tudo motivado pela ação do homem sobre a natureza flexível, uma vez que não fazem nenhum progresso próprio. Animais domesticados.

Quanto à linguagem dos animais irracionais, são formadas de uma linguagem de palavras e de sílabas, mas de um meio de se comunicarem entre eles. Às vezes dizem mais coisas do que pensamos mais esta é limitada às suas necessidades, como as suas ideias.

Os que podemos dizer daqueles animais que são mudos, é que eles são dotados da vida de relação, tendo meios de se informar e de exprimir as suas sensações.

Damos exemplo às andorinhas que obedecem ao guia que as conduz, devem ter meio de se informarem, se entenderem e se combinarem. O que quer que seja que deve ter um meio de se entenderem, ocorrendo o mesmo como os animais mudos, e que fazem seus trabalhos em comum.

Os animais irracionais não possuem o livre arbítrio, porque a sua liberdade é restrita aos atos da vida material.

Alguns animais vêm com aquela aptidão de imitar a linguagem dos homens, ou seja, pela conformação particular dos órgãos da voz, favorecido pelo instinto de imitação. O macaco imita os gestos, e alguns pássaros como o papagaio a voz do homem.

 

BIOGRAFIA. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. MATÉRIA DIVULGADA PELO MÉDIUM GETULIO PACHECO QUADRADO.

 

domingo, 2 de junho de 2024

O LIVRO DOS ESPÍRITOS. CAPÍTULO VIII. DA EMANCIPAÇÃO DA ALMA.TRANSMISSÃO OCULPA DO PENSAMENTO.

 


O LIVRO DOS ESPÍRITOS. CAPÍTULO VIII. DA EMANCIPAÇÃO DA ALMA.

TRANSMISSÃO OCULTA DO PENSAMENTO.

Através do acima, a mesma ideia, a de uma descoberta, por exemplo, pode surgir em diversos lugares ao mesmo tempo durante o sono, por que os Espíritos se comunicam entre si. Pois bem, quando o corpo desperta, o Espírito se recorda do que aprendeu e o ser humano acredita ser o autor da invenção. Assim, muitos podem descobrir a mesma coisa ao mesmo tempo. Quando dizemos: uma ideia está no ar, usamos através de uma figura de linguagem mais justa do que acreditamos; cada um, sem saber, contribui para propagá-la.

☼ Nosso próprio Espírito revela, assim, muitas vezes a outros Espíritos e sem nosso conhecimento, o que se faz objeto de nossas preocupações quando acordados.

Os Espíritos podem se comunicar mesmo que o corpo esteja completamente acordado, porque o Espírito não está fechado no corpo como numa caixa; ele irradia por todos os lados. Eis por que pode se comunicar com outros Espíritos, até mesmo acordados, embora o faça mais dificilmente.

Duas pessoas perfeitamente acordadas têm muitas vezes, instantaneamente, a mesma ideia, porque são dois Espíritos simpáticos que se comunicam e veem reciprocamente seus respectivos pensamentos. Até mesmo quando o corpo não dorme.

☼ Existe, entre os Espíritos que se encontram, uma comunicação de pensamentos que faz com que duas pessoas se vejam e se compreendam, sem ter necessidade dos sinais exteriores da linguagem. Pode-se dizer que falam a linguagem dos Espíritos.

LETARGIA, CATALEPSIA, MORTES APARENTES:

Os letárgicos e os catalépticos veem e ouvem geralmente pelo Espírito; o Espírito tem conhecimento dos fatos, mas não pode se comunicar.

Não podem se comunicar porque o estado do corpo se opõe a isso; esse estado peculiar dos órgãos vos dá a prova de que existe no ser humano outra coisa além do corpo, uma vez que o corpo não funciona mais, mas o Espírito ainda age.

Na letargia, o corpo não está morto, uma vez que há funções vitais que permanecem. A vitalidade se encontra em estado latente, como na crisálida, mas não está aniquilada. Portanto, o Espírito está unido ao corpo enquanto este vive. Mas quando os laços são rompidos pela morte real há a desagregação dos órgãos, a separação é completa e o Espírito não retorna mais. Quando um ser humano aparentemente morto retorna à vida, é que o processo da morte não estava consumado.

Pode-se, por meio de cuidados dados a tempo, reatar os laços prestes a se romper e tornar à vida um ser que, por falta de socorro, estaria definitivamente morto. Para provar isso temos a prova disso todos os dias. O magnetismo é frequentemente, nesse caso, um poderoso meio, porque restitui ao corpo o fluido vital que lhe falta e que era insuficiente para manter o funcionamento dos órgãos.

☼ A letargia e a catalepsia têm o mesmo princípio, que é a perda momentânea da sensibilidade e do movimento por uma causa fisiológica. Diferem em que, na letargia, a suspensão das forças vitais é geral e dá ao corpo todas as aparências da morte.

Na catalepsia, é localizada e pode afetar uma parte mais ou menos extensa do corpo, de maneira a deixar a inteligência livre para se manifestar, o que não permite confundi-la com a morte. A letargia é sempre natural; a catalepsia é algumas vezes espontânea, mas pode ser provocada ou desfeita artificialmente pela ação magnética.

SONAMBULISMO

Já no sonambulismo natural tem relação com os sonhos, porque o Espírito sente uma situação de independência mais completa do que no sonho. É explicado porque então suas faculdades abrangem maior amplidão e passa a ter percepções que não tem no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito. No sonambulismo, o Espírito atinge a plena posse de si, é inteiramente ele mesmo; os órgãos materiais, estando de alguma forma em catalepsia, não recebem mais as impressões exteriores. Esse estado se manifesta principalmente durante o sono. É o momento em que o Espírito pode deixar provisoriamente o corpo, estando este entregue ao indispensável repouso da matéria. Quando os fatos do sonambulismo se produzem, é que o Espírito, preocupado com uma coisa ou outra, se entrega a uma ação qualquer que necessita da utilização de seu corpo, do qual se serve, então, de uma maneira semelhante ao que se faz com uma mesa ou com qualquer outro material no fenômeno das manifestações físicas, ou até mesmo de vossa mão, no caso das comunicações escritas. Nos sonhos de que se tem consciência, os órgãos, incluindo o da memória, começam a despertar e recebem imperfeitamente as impressões produzidas pelos objetos ou as causas exteriores e as comunicam ao Espírito, que, em repouso, não se apercebe a não ser de sensações confusas e frequentemente sem nexo e sem nenhuma razão de ser aparente, misturadas que estão com vagas lembranças, seja desta ou de existências anteriores. Fica então fácil compreender por que os sonâmbulos, enquanto no estado sonambúlico, não têm nenhuma lembrança do que ocorreu, e por que os sonhos, dos quais se conserva a memória, não têm muitas vezes o menor sentido. Digo muitas vezes porque pode acontecer que sejam a consequência de uma lembrança precisa de acontecimentos de uma vida anterior e, algumas vezes, até mesmo uma espécie de intuição do futuro.

O sonambulismo chamado magnético tem relação com o sonambulismo natural; a diferença é que ele é provocado.

A natureza do agente chamado fluido magnético, vem a ser modificação do fluido universal. É Fluido vital, eletricidade animalizada.

A causa da clarividência sonambúlica, vem a ser a alma que vê.

O sonâmbulo não pode ver através de corpos opacos, porque não há corpos desta natureza, a não ser para nossos órgãos grosseiros; já foi dito que, para o Espírito, a matéria não é obstáculo, uma vez que ele a atravessa livremente. Frequentemente, o sonâmbulo diz que vê pela fronte, pelo joelho, etc., porque nós, inteiramente presos à matéria, não compreendemos que se possa ver sem o auxílio dos órgãos da visão. Ele mesmo, pelo desejo que temos, em acreditar termos a necessidade desses órgãos, mas se o deixássemos livre compreenderíamos que vemos por todas as partes de nosso corpo ou, melhor dizendo, vemos de fora de nosso corpo.

Mesmo que clarividência do sonâmbulo possa pertencer a sua alma ou ao seu Espírito, ele não consegue ver tudo e se engana frequentemente, é porque não é dado aos Espíritos imperfeitos tudo ver e conhecer; pois devemos saber que eles ainda participam de nossos erros e preconceitos. Além disso, quando estão ligados à matéria, não usufruem de todos os dons ou faculdades do Espírito. Deus deu ao ser humano a faculdade do sonambulismo com um objetivo útil e sério, e não para o que não deve saber; eis por que os sonâmbulos não podem dizer tudo.

As ideias inatas do sonâmbulo e de como ele pode falar com exatidão de coisas que ignora quando acordado, é porque o sonâmbulo possui mais conhecimentos do que supomos; e apenas se acham adormecidos, porque seu corpo é um entrave para que possa se lembrar das coisas. Ele é como nós, um Espírito encarnado na matéria para cumprir sua missão e o estado em que entra o desperta dessa letargia. Já nos foi dito repetidamente, que vivemos muitas vezes; é essa mudança que faz o sonâmbulo e qualquer outro Espírito perder materialmente o que pôde aprender em uma existência anterior. Ao entrar no estado que chamamos de transe, ele se recorda, mas nem sempre de uma maneira completa; sabe, mas não poderia dizer de onde lhe vem o que sabe nem como possui esses conhecimentos. Passado o transe, toda lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.

☼ A experiência mostra que os sonâmbulos também recebem comunicações de outros Espíritos que lhes transmitem o que devem dizer e suprem sua insuficiência. Isso se vê especialmente nas prescrições médicas Espíritas: o Espírito do sonâmbulo vê o mal, e um outro lhe indica o remédio.

A visão à distância em alguns sonâmbulos, é explicada, que assim como a alma se transporta durante o sono, o mesmo pode acontecer no sonambulismo.

O desenvolvimento maior ou menor da clarividência sonambúlica prende-se à organização física e à natureza do Espírito encarnado.

Existem disposições físicas que permitem ao Espírito se desprender mais ou menos da matéria.

As faculdades, os dons dos quais desfruta o sonâmbulo, são até certo ponto as mesmas que o Espírito tem após a morte. Justifica-se porque é preciso levar em conta a influência da matéria à qual ainda está ligado.

A maioria dos sonâmbulos podem ver os outros Espíritos. Porém isso depende do grau e da natureza de sua lucidez, mas algumas vezes não se dá conta disso de início e os toma por seres corpóreos. Isso acontece principalmente com aqueles que não possuem nenhum conhecimento do Espiritismo. Ainda não compreendem a essência dos Espíritos. Isso os espanta e eis por que acreditam estar vendo pessoas vivas.

☼ O mesmo efeito se produz no momento da morte naqueles que acreditam ainda estarem vivos. Nada a seu redor parece mudado, os Espíritos lhe parecem ter corpo semelhante ao nosso e tomam a aparência do próprio corpo como um corpo real.

O sonâmbulo vê à distância por que é a alma que vê e não o corpo.

Uma vez que é a alma que se transporta, pode o sonâmbulo experimentar em seu corpo as sensações de calor e frio do lugar onde se encontra sua alma, e que está, muitas vezes, bem longe de seu corpo, é porque a alma não deixou inteiramente o corpo; está sempre ligada a ele por um laço que é o condutor das sensações. Quando duas pessoas se correspondem de uma cidade a outra por meio da eletricidade, é a eletricidade o laço entre seus pensamentos. Por esse laço se comunicam como se estivessem ao lado uma da outra.

Dependendo do bom ou mau uso que um sonâmbulo faça de sua faculdade, pode influir sobre o estado de seu Espírito após sua morte.

ÊXTASE.

A diferença existente entre o êxtase e o sonambulismo, é que o êxtase é um sonambulismo mais purificado; já a alma do extático é ainda mais independente.

O Espírito do extático penetra nos mundos superiores, e ele os vê e compreende a felicidade daqueles que os habitam. Deseja, por isso, lá permanecer. Mas existem mundos inacessíveis aos Espíritos que não são suficientemente depurados.

Dependendo do estado de pureza, o extático exprime o desejo de deixar a Terra, e fala sinceramente e não sente atuar nele o instinto de conservação, por que: por que ele vê sua posição futura melhor do que sua vida presente, faz esforços para romper os laços que o prendem à Terra.

Se o extático ficasse abandonado a si mesmo, sua alma poderia deixar seu corpo, e morrer. Por isso é preciso fazê-lo voltar apelando para tudo o que pode prendê-lo à vida na Terra e, principalmente, fazendo-o compreender que, se romper a cadeia que o retém aqui, será a maneira certa de não permanecer onde ele vê que seria feliz.

Existem coisas que o extático pretende ver e que são fruto de uma imaginação impressionada pelas crenças e preconceitos terrenos. Pois o que ele vê é real para ele, mas como seu Espírito está sempre sob a influência das ideias terrenas pode vê-lo à sua maneira ou, melhor dizendo, pode se exprimir numa linguagem apropriada a seus preconceitos ou às ideias em que foi educado, ou aos vossos, a fim de melhor se fazer compreender. É, principalmente, nesse sentido que ele pode errar.

Nas revelações dos extáticos, quando a confiança que devemos ter, é que muito frequentemente se engana, principalmente quando pretende penetrar naquilo que deve permanecer em mistério para o homem, porque então revelará suas próprias ideias ou se tornará joguete de Espíritos enganadores que se aproveitam de seu entusiasmo para fasciná-lo.

As consequências que podemos tirar dos fenômenos do sonambulismo e do êxtase, seriam uma espécie de iniciação da vida passada e a vida futura que nós os seres humanos entrevemos. Se estudássemos esses fenômenos, aí encontraríamos a solução de mais de um mistério que a nossa razão procura inutilmente penetrar.

Aquele que estuda de boa-fé e sem prevenções, os fenômenos do sonambulismo e do êxtase, não pode ser nem materialista nem ateu.

DUPLA VISTA.

O fenômeno conhecido como dupla vista ou segunda vista tem relação com o sonho e o sonambulismo, sendo tudo isto a mesma coisa. O que chamamos de dupla vista é ainda o Espírito que está mais livre, embora o corpo não esteja adormecido. A dupla vista é a vista da alma.

A faculdade da dupla vista é permanente, e o exercício, não. Nos mundos menos materiais, os Espíritos se desprendem mais facilmente e se comunicam apenas por meio do pensamento, sem excluir, entretanto, a linguagem articulada. A dupla vista é também, para a maioria dos que lá habitam, uma faculdade permanente. Seu estado normal pode ser comparado ao dos nossos sonâmbulos lúcidos e é também por essa razão que eles se manifestam mais facilmente do que aqueles que estão encarnados nos corpos mais grosseiros.

A dupla vista se desenvolve mais frequentemente pela espontaneidade, e mas muitas vezes a vontade aí exerce um grande papel. Assim, por exemplo, em certas pessoas que se chamam adivinhos, algumas das quais têm essa faculdade, vereis que é exercitando a vontade que chegam a ter dupla vista, o que chamais de visão ou visões.

Há a possibilidade de se desenvolver a dupla vista pelo exercício. O trabalho sempre traz o progresso e faz desaparecer o véu que cobre as coisas.

Essa faculdade tem alguma ligação com a organização física, onde o organismo desempenha aí um papel; existem, porém, organismos que lhe são refratários.

A dupla vista parece ser hereditária em certas famílias, pela semelhança dos organismos que se transmite como as outras qualidades físicas. Além disso, a faculdade se desenvolve por uma espécie de educação que também se transmite de um para outro.

É certo que algumas circunstâncias provocam o desenvolvimento da dupla vista. A doença, a expectativa de um perigo, uma grande comoção podem desenvolvê-la. O corpo está algumas vezes num estado incomum, especial, que permite ao Espírito ver o que não podeis ver com os olhos do corpo.

☼ Em tempos de crise e de calamidades, as grandes emoções, todas as causas que superexcitam o moral7 provocam, algumas vezes, o desenvolvimento da dupla vista. Parece que a Providência, em presença do perigo, nos dá o meio de afastá-lo. Todas as seitas e facções políticas perseguidas nos oferecem numerosos exemplos disso.

As pessoas dotadas da dupla vista nem sempre têm consciência disso. Para elas é uma coisa totalmente natural, e muitos acreditam que, se todas as pessoas observassem o que se passa consigo mesmas, deveriam ser como eles.

Não Poderíamos atribuir a uma espécie de dupla vista a perspicácia de certas pessoas que, sem nada terem de extraordinário, julgam as coisas com mais precisão do que as outras. Porque é sempre a alma que irradia mais livremente e julga melhor que sob o véu da matéria.

Essa faculdade pode, em certos casos, dar a previsão das coisas, e também os pressentimentos, porque existem vários graus nessa faculdade, e a mesma pessoa pode ter todos os graus ou apenas alguns.

RESUMO TEÓRICO DO SONÂMBULISMO, DO ÊXTASE, E DA DUPLA VISTA:

Os fenômenos do sonambulismo natural se produzem espontaneamente e são independentes de toda causa exterior conhecida. Contudo, o organismo físico de algumas pessoas pode ser especialmente dotado para isso e os fenômenos podem, então, ser provocados artificialmente, por um magnetizador.

O estado designado sob o nome de sonambulismo magnético só difere do sonambulismo natural porque é provocado, enquanto o outro é espontâneo.

O sonambulismo natural é um fato notório que ninguém mais põe em dúvida, apesar do aspecto maravilhoso dos seus fenômenos. O que tem, então, de mais extraordinário ou de mais irracional o sonambulismo magnético? Apenas por ser produzido artificialmente, como tantas outras coisas? Os charlatães, dizem, o têm explorado. Eis uma razão a mais para não o deixar nas mãos deles. Quando a ciência o tomar para si, admitindo-o, o charlatanismo terá bem menos crédito sobre as massas. Contudo, enquanto isso não acontece, o sonambulismo natural ou artificial é um fato, e como contra fatos não há argumentos, se propaga, apesar da má vontade de alguns, e isso até mesmo na ciência, onde penetra por uma infinidade de pequenas portas em vez de ser aceito pela porta da frente. Quando estiver plenamente firmado lá, será preciso conceder-lhe direito de cidadania.

Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno fisiológico, é uma luz lançada sobre a psicologia; é aí que se pode estudar a alma, porque ela se mostra descoberta. Ora, um dos fenômenos pelos quais a alma ou Espírito se caracteriza é a clarividência, independentemente dos órgãos ordinários da vista. Os que contestam esse fato se apoiam no argumento de que o sonâmbulo nem sempre vê como se vê pelos olhos e nem sempre vê conforme a vontade do experimentador. É natural. E devemos nos surpreender que, sendo os meios diferentes, os efeitos não sejam os mesmos? É racional querer efeitos idênticos quando o instrumento não existe mais? A alma tem suas propriedades assim como o olho tem as suas; é preciso julgá-las em si mesmas e não por comparação.

A causa da clarividência tanto no sonambulismo magnético quanto no natural é a mesma: é um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que está em nós e cujos limites são os mesmos da própria alma. O sonâmbulo vê todos os lugares aonde sua alma possa se transportar, seja qual fora distância.

Na visão à distância, o sonâmbulo não vê as coisas do lugar em que está seu corpo e sim como por um efeito telescópico. Ele as vê presentes e como se estivesse no lugar onde elas existem, visto que sua alma lá está em realidade. É por isso que seu corpo fica como se estivesse aniquilado e parece privado de sensações até o momento em que a alma vem retomá-lo.

Essa separação parcial da alma e do corpo é um estado anormal que pode ter uma duração mais ou menos longa, mas não indefinida; é a causa do cansaço que o corpo sente após um certo tempo, principalmente quando a alma se entrega a um trabalho ativo.

O órgão da visão na alma ou Espírito não é circunscrito e não tem um lugar determinado, como no corpo físico, o que explica por que os sonâmbulos não podem lhe assinalar um órgão especial. Eles veem porque veem, sem saber como ou por que, pois para eles, como Espíritos, a vista não tem sede própria. Ao se reportarem ao seu corpo, essa sede lhes parece estar nos centros onde a atividade vital é maior, principalmente no cérebro, na região epigástrica9, ou no órgão que, para eles, é o ponto de ligação mais intenso entre o Espírito e o corpo.

O poder da lucidez sonambúlica não é ilimitado. O Espírito, mesmo completamente liberto do corpo, está limitado em suas faculdades e conhecimentos de acordo com o grau de perfeição que atingiu, e mais ainda por estar ligado à matéria da qual sofre influência. Por causa disso é que a clarividência sonambúlica não é comum, nem infalível. Muito menos se pode contar com sua infalibilidade quanto mais se desviado objetivo proposto pela natureza e quanto mais se faz dela objeto de curiosidade e experimentação.

No estado de desprendimento em que se encontra, o Espírito do sonâmbulo entra em comunicação mais fácil com outros Espíritos encarnados ou não encarnados; essa comunicação se estabelece pelo contato dos fluidos que compõem os períspiritos e servem de transmissão para o pensamento, como o fio na eletricidade.

O sonâmbulo não tem, portanto, necessidade de que o pensamento seja articulado pela fala: ele o sente e adivinha, é o que o torna extremamente impressionável às influências da atmosfera moral em que está. É também por isso que uma assistência numerosa de espectadores, e principalmente de curiosos mal-intencionados, prejudica o desenvolvimento dessas faculdades, que se recolhem, por assim dizer, em si mesmas, e não se desdobram com toda a liberdade como numa reunião íntima e num meio simpático. A presença de pessoas mal-intencionadas ou antipáticas produz sobre o sonâmbulo o efeito do contato da mão sobre a planta sensitiva10.

O sonâmbulo vê às vezes seu próprio Espírito e seu próprio corpo; são, por assim dizer, dois seres que lhe representam a dupla existência, espiritual e corporal, e entretanto se confundem pelos laços que os unem. Nem sempre o sonâmbulo se dá conta dessa situação e essa dualidade faz com que muitas vezes fale de si como se falasse de outra pessoa; é que, às vezes, é o ser corporal que fala ao espiritual e, outras, é o ser espiritual que fala ao corporal.

O Espírito adquire um acréscimo de conhecimento e experiência a cada uma de suas existências corporais. Ele os esquece em parte, durante sua encarnação numa matéria muito grosseira, mas sempre se lembra disso como Espírito.

É por isso que certos sonâmbulos revelam conhecimentos além da instrução que possuem e até mesmo superiores às suas aparentes capacidades intelectuais. A inferioridade intelectual e científica do sonâmbulo quando acordado não interfere, portanto, em nada nos conhecimentos que pode revelar. De acordo com as circunstâncias e o objetivo a que se proponha, pode tirá-las de sua própria experiência, na clarividência das coisas presentes ou do conselho que recebe de outros Espíritos, ou ainda do seu próprio Espírito, que, podendo ser mais ou menos avançado, pode então dizer coisas mais ou menos certas.

Pelos fenômenos do sonambulismo, tanto o natural quanto o magnético, a Providência nos dá a prova irrecusável da existência e independência da alma e nos faz assistir ao espetáculo sublime da liberdade que ela tem; assim, nos abre o livro de nossa destinação. Quando o sonâmbulo descreve o que se passa à distância, é evidente que ele vê, mas não pelos olhos do corpo; vê a si mesmo e sente-se transportado para lá; há, portanto, naquele lugar algo dele, e esse algo, não sendo seu corpo, só pode ser sua alma ou Espírito.

Enquanto o homem se perde nas sutilezas de uma metafísica abstrata e incompreensível para pesquisar as causas de nossa existência moral, Deus coloca diariamente ao alcance de nossos olhos e nossas mãos os meios mais simples e evidentes para o estudo da psicologia experimental.

O êxtase é o estado em que a independência da alma e do corpo se manifesta de maneira mais sensível e torna-se de certo modo palpável.

No sonho e no sonambulismo, a alma percorre os mundos terrestres. No êxtase, penetra num mundo desconhecido, dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem, entretanto, ultrapassar certos limites que não teria como transpor sem romper totalmente os laços que a ligam ao corpo. Sente-se num estado resplandecente completamente novo que a circunda, harmonias desconhecidas na Terra a arrebatam, um bem-estar indefinível a envolve. A alma desfruta por antecipação da beatitude celeste e pode-se dizer que põe um pé sobre o limiar da eternidade.

No estado de êxtase o aniquilamento do corpo é quase completo; tem apenas, por assim dizer, a vida orgânica e sente que a alma está a ele ligado apenas por um fio que um pequeno esforço extra faria romper para sempre.

Nesse estado, todos os pensamentos terrestres desaparecem para dar lugar ao sentimento puro, que é a própria essência de nosso ser imaterial. Inteiramente envolto nessa contemplação sublime, o extático encara a vida apenas como uma paragem momentânea. Para ele tanto o bem quanto o mal, as alegrias grosseiras e misérias aqui da Terra são apenas incidentes fúteis de uma viagem cujo término que avista o deixa feliz.

Os extáticos são como os sonâmbulos: sua lucidez pode ser mais ou menos perfeita e seu próprio Espírito, conforme for mais ou menos elevado, estará também igualmente apto a conhecer e compreender as coisas. Há neles, algumas vezes, mais exaltação do que verdadeira lucidez ou, melhor dizendo, sua exaltação prejudica sua lucidez. É por isso que suas revelações são frequentemente uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e absurdas ou até mesmo ridículas. Os Espíritos inferiores se aproveitam, frequentemente, dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza quando não se sabe reprimi-la, para dominar o extático, e se fazem passar aos seus olhos com aparências que o prendem às ideias e preconceitos que têm quando acordado. Isso representa uma dificuldade e um perigo, mas nem todos são assim; cabe a nós julgar friamente e pesar suas revelações na balança da razão.

A emancipação da alma se manifesta às vezes no estado de vigília e produz o fenômeno conhecido como dupla vista ou segunda vista, que dá àqueles que dela são dotados a faculdade de ver, ouvir e sentir além dos limites de nossos sentidos. Eles percebem coisas distantes em todas as partes onde a alma estenda sua ação; eles as veem, por assim dizer, pela visão ordinária e por uma espécie de miragem.

No momento em que se produz o fenômeno da dupla vista, o estado físico do indivíduo é sensivelmente modificado; o olhar tem algo de vago: olha sem ver; a fisionomia toda reflete um ar de exaltação. Constata-se que os órgãos da vista ficam alheios ao processo porque a visão persiste, apesar dos olhos fechados.

Essa faculdade parece, para aqueles que dela desfrutam, tão natural como a de ver; é para eles uma propriedade normal do seu ser e não lhes parece excepcional. O esquecimento se segue em geral a essa lucidez passageira da qual a lembrança, cada vez mais vaga, acaba por desaparecer como a de um sonho.

O poder da dupla vista varia desde a sensação confusa até a percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes. No estado rudimentar, dá a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma espécie de certeza em seus atos que se pode chamar de precisão do golpe de vista moral.

Um pouco mais desenvolvida, desperta os pressentimentos; ainda mais desenvolvida, mostra os acontecimentos ocorridos ou em via de ocorrer.

O sonambulismo natural ou artificial, o êxtase e a dupla vista são apenas variedades ou modificações de uma mesma causa. Esses fenômenos, assim como os sonhos, estão na lei da natureza; eis por que existiram desde todos os tempos. A história nos mostra que foram conhecidos e até mesmo explorados desde a mais alta Antiguidade e neles está a explicação de diversos fatos que os preconceitos fizeram considerar sobrenaturais.

BIBLIOGRAFIA: O LIVRO DOS ESPÍRITOS.MATÉRIA DIVULGADA PELO MÉDIUM GETULIO PACHECO QUADRADO.